Diálogos necessários

Por Kleber Amancio

É possível afirmar que a exposição Diálogos ausentes, em cartaz no Itaú Cultural, é evento sem precedentes na história da arte brasileira; a começar pelas circunstâncias que a cercam, passando pela escolha das curadoras, Rosana Paulino e Diane Lima, a escalação dos artistas, das artistas e de suas obras. A mostra explora diversos aspectos da aventura que envolve ser negro no Brasil; do passado escravista ao racismo científico, as reiteradas políticas de exclusão, a segregação, a criminalização e a eliminação física (talvez a única constante nessa experiência), a religião e a fé, a música, a dança, os corpos e suas demandas, muitas.

A ideia da exibição desponta a partir dos colóquios que se desenrolaram ao longo de 2016 na mesma instituição e que levaram o mesmo nome, uma resposta acertada ao famigerado caso de Blackface ocorrido no ano anterior. Os artistas e grupos são tanto numerosos quanto plurais, homens e mulheres negras que, a despeito das recomendações do “deus” mercado, dispõe-se às discussões de temas que dissertam sobre si e a constituição da sociedade brasileira.

Lembremos, pois, que o Brasil foi o país mais ativo na Diáspora Africana, essa empresa que espezinhou a existência de milhares de fons, jejês, nagôs, haússas entre representantes de outros grupos étnico-sociais aos quais acostumamo-nos chamar, genericamente, de “africanos”. Esses sujeitos foram aprisionados, sequestrados, desenraizados, convertendo-se, por meio do direito positivo, em propriedade de terceiros, ou ainda, nos termos da lógica senhorial e de certa tese sociológica dos anos 1970, à “coisa”. Esse sistema, para além de imoral, foi uma política de Estado conduzida ilegalmente ao longo do século XIX, posto que por força de lei o tráfico havia acabado oficialmente em 1831. Suas implicações podem ser sentidas ainda hoje, não como herança direta mas no quotidiano das relações sociais ou em deliberadas políticas assumidas pelo Estado brasileiro ou em acordos internacionais de grande monta.

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Cena do documentário Lápis de cor de Larissa Fulana de Tal. 2014.

Em Lápis de cor a cineasta Larissa Fulana de Tal investiga o racismo na ótica das crianças negras. O documentário é tecido por meio de uma série de entrevistas que intenta captar seu universo mental. Perguntas acerca de temas como a beleza, sua autoimagem, o que são e como gostariam de ser expõe como esses padrões são enraizados em nossas cabeças desde a infância. Tudo isso tendo as suas respectivas autorepresentações imagéticas como ponto de partida. Uma perspectiva muito próxima daquela adotada por Juliana Vicente em Cores e botas. Nesse curta a protagonista Joana é uma garota negra, de classe média alta, e que, como milhares de meninas que cresceram nos anos 1980, sonhava em ser “paquita”. Ela e sua família convivem em espaços brancos em que, a exceção dos empregados, invariavelmente são os únicos negros. Após Joana vivenciar uma situação de evidente racismo (talvez a primeira que tenha percebido em sua vida), o desfecho da narrativa desagua numa dolorida mas necessária reflexão familiar.

KBELA de Yasmin Thayná é uma narrativa visual sobre a relação que as mulheres negras estabelecem com seu cabelo, sobre seu embranquecimento. Numa das cenas, por exemplo, vemos apenas a cabeça de uma garota negra. Seus fios crespos sofrem toda sorte de violência a fim de serem controlados. Noutra uma garota, também negra, lava a louça com seu cabelo. A obra guarda semelhanças com a performance de Priscila Rezende (como a própria autora reconhece uma entrevista), mas também com o de Hank William Thomas, Kori Chakaia Buker entre muitos outros que pensam essa relação entre estética negra, política e identidade.

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Cena do curta-metragem Cores e Botas de Juliana Vicente. 2014.

Renata Felinto fez uma performance na rua, mais especificamente na afamada Oscar Freire em São Paulo. Essa ação foi documentada em vídeo e foto (na exposição temos acesso apenas ao material fotográfico). A artista veste uma saia lápis, camisa social branca, peruca loira, batom rosa, bolsa verde, leque e óculos escuros. O pescoço está adornado por vistosas jóias. O rosto está propositalmente embranquecido, é o seu Whiteface. Subverte a ideia de Blackface, que tem origem na tradição racista do teatro norte-americano, mais especificamente nos minstrel shows, e que remonta o início das leis da Jim Crow naquele país. Um corpo negro questionador. Ao se travestir protesta padrões estéticos historicamente tidos por universais, vincula a discussão ao consumismo e à construção da branquitude.

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Renata Felinto. White Face, Blonde Hair. 2013. Disponível em: http://www.contemporaryand.com/magazines/the-art-of-the-black-atlantic

Seguindo a mesma linha (de utilizar o corpo negro como veículo, ou ainda o próprio negro corpo) Sidney Amaral também propõe essa reflexão. Em Gargaleira ou Quem Falará por Nós? o arista invoca o protagonismo, ideia subjacente em todas as obras da mostra. Aparece cercado de microfones de todos os lados, atados por uma coleira que lhe envolve o pescoço. Noutra Amaral aborda a ideia de raça, consumo de massa e memória. O artista faz novamente um autorretrato – prática bastante recorrente em sua obra. Está sentado, de costas, sob um banquinho. Seu corpo leva escarificações: o logo de várias grandes marcas de materiais esportivos como: Nike, Adidas, Rainha, Puma… ao seu lado um par de Kichutes em tamanho infantil… Essa obra possui afinidades com outro trabalho de Hank William Thomas, mas também com Douglas Perez. Contextos que não são os mesmos mas que guardam certas semelhanças que se refletem nos problemas que  resolveram explorar.

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Sidney Amaral. Gargaleira ou quem falará por nós? 2014. Aquarela e lápis sobre papel.

Investigar a escravidão é a tarefa assumida por Aline Motta em Escravos de Jó. A artista parte da brincadeira de criança, de sua narrativa… e a decompõe. Cria uma versão alternativa, desconstruída, que expõe a crueza da escravidão. Têm na letra da música e na espacialidade do ritual material para transpor a organização da obra, seja por meio de trechos da canção, citações bíblicas do Livro de Jó ou a adoção da forma circular. Num dos painéis montados sob a parede, por exemplo, recortou palavras encontradas em anúncios de jornal que descreviam escravos fugidos durante o século XIX. São as etnias dos sujeitos escravizados. A leveza das folhas semitransparentes contrasta com a violência que envolve o tema, reforçando-a, num movimento parecido com a obra Atlântico Vermelho, de Rosana Paulino. Contudo, no caso da obra em questão o passado escravista é questionado na dimensão histórica da memória construída lentamente, na longa duração, no quotidiano.

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Aline Motta. Escravos de Jó. Detalhe.

A mostra consta ainda com obras de André Novais Oliveira, Ângelo Flávio, Capulanas Cia. de Arte Negra, Dalton Paula, Eneida Sanches, Fernanda Júlia, NEGR.A – Coletivo Negras Autoras, Sérgio Adriano e Viviane Ferreira. Homens e mulheres negras, artistas relevantes em suas respectivas áreas de atuação e que tomam para si a tarefa de promover narrativas concorrentes num mundo eminentemente racista. Certamente a exposição não dá conta de todos os problemas que aflige a população negra, tampouco me parece ser a intenção. Embora grandiosa é um evento único e carrega em si o mérito de ter sido uma conquista, posto que foi cativada por meio de uma ação política incisiva e da promoção de um debate intelectual qualificado. É necessário ocupar espaços, replicar essa ação, transmuta-la de acontecimento em regra, para além do que a nós previamente é determinado.

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