Chacal: poesia e contracultura

Por Kleber Amancio

Trailer do filme

O documentário Chacal: Proibido fazer poesia é um curta que se propõe a narrar a estadia de Ricardo Chacal junto à Universidade de Harvard, nos EUA. O filme foi rodado em abril de 2014, na ocasião em que o poeta marginal foi convidado pelo Department of Romance Languages and Literatures a fazer parte de um evento: a Brazilian Week, organizado pelos professores e alunos do Departamento, dentre eles o saudoso Prof. Dr. Nicolau Sevcenko.

O filme, que conta com direção de Rodrigo Lopes de Barros, pretende-se uma obra colaborativa entre os realizadores e o artista; mais do que um mero diário da passagem de Chacal por Harvard (como pode parecer num primeiro momento), a fita documenta suas performances, explora suas memórias; de suas obras, da cena política e do contexto artístico em que começou a produzir. Colaborar talvez seja o termo mais acertado para definir a função da direção.

Logo no início da película vemos a apresentação do espaço onde a ação acontece. O primeiro local escolhido é o Harvard Yard, coração da Universidade onde diariamente alunos apressados e turistas embasbacados esbarram-se entre o início de uma disciplina e outra. E eis que aos pés da estátua de John Harvard surge o poeta sorridente e despreocupado por entre a capa de um de seus livros. É um embate entre a solenidade de uma Universidade tradicional e a potencialidade desestruturante de sua poesia.

A escolha do preto e branco (presente em quase todo o filme) põe relevo sobre as ações. Sai do lugar comum, não é a contracultura sensorial, repleta de cores em technicolor mas antes a questão da atitude “filosófica” diante do mundo, nos termos do próprio poeta. A narrativa é entrecortada por legendas que explicam; sejam questões a respeito do momento histórico em que o artista começa a produzir ou sobre sua proposta estética, nada óbvia para os que não estão familiarizados com o tema.

Nos primeiros minutos  somos levados a um clima de excitação, tanto pelo corte dinâmico quanto pela trilha sonora frenética. Aos 2 minutos somos advertidos por um frame vermelho que parece nos chamar a atenção para a experiência estética que estamos prestes a experienciar.

Em certos momentos o que vemos na tela enfatiza e (ou) potencializa o que por é dito por Chacal. Em outros tantos mostra-nos como leva-se a sério o conteúdo de sua poesia. Estamos diante de uma obra que é verdadeiramente influenciada pelo seu objeto de maneira orgânica, isto é, uma via de mão dupla. A cena do artista assistindo um dos cortes preliminares do filme, risonho, descalço, num clima de total descontração é salutar.

Chacal tem a oportunidade de nos contar suas experiências; é com ele que fica grande parte da verbalização da obra. Quando o poeta declama, a direção busca suas diversas facetas. Seja por meio da fotografia (da escolha das mídias que vão do super 8 às câmeras digitais) ou da trilha (que em alguns momentos plasma-se com a poesia).

Chacal: Proibido fazer poesia é um retrato original de um dos poetas mais importantes de sua geração. Não cai em contextualizações fáceis, ou clichês convencionais. Respeita o artista homenageado de tal maneira que propõe a este uma pareceria, porém sem perder o caráter analítico necessário ao gênero. Seu grande acerto reside na consonância entre conteúdo e forma, representando um ganho estético narrativo de grande valor. Como todo bom curta cativa o espectador a ponto de pensar que um longa fosse a decisão mais acertada, e justamente por não sê-lo é onde reside sua maior força.

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