Drapetomania

Por Kleber Amancio

Esteve em cartaz na Cooper Gallery, ligada ao Hutchins Center de Harvard, a exposição Drapetomania: Grupo Antillano and the Art of Afro-Cuba. A exibição tem por intento recuperar o discurso visual proposto por essa importante vanguarda artística do século XX, o Grupo Antillano (1978-1983); reflete retrospectivamente sobre os caminhos que essa trilhou para a discussão dos negros na conformação da nacionalidade cubana.

As obras selecionadas são uma mescla daquelas produzidas durante a revolução e o desenvolvimento dos mesmos artistas na contemporaneidade, assim como de tantos outros jovens, ainda que geracionalmente distintos.

As abordagens são bastante variadas, porém guardam em comum o desejo de inserir o negro e as tradições africanas como objeto de investigação estética. Essa preocupação é perceptível nas obras, mas também no manifesto (disponível tanto em inglês quanto em espanhol).

Cuellar de Andres Moltavan, por exemplo, é uma escultura que fala sobre o retornar. É formatada em madeira; uma série de silhuetas de corpos negros cuidadosamente empilhadas. Ao centro uma caixa, também de madeira interrompe as duas partes da escultura. Impressiona a expressividade que o artista alcança com gestos mínimos, experimentando diferentes ações das personagens protagonistas.

Andres Montalvan. Cuellar.

Andres Montalvan. Cuellar.

La suerte del mayoral de N. Olazabal apresenta-nos também um corpo negro, amarrado a uma árvore, inerte. Há um enorme buraco em seu peito d’onde jorra sangue vorazmente. O impacto visual causado pela virulência da cena é potencializado pelo forte tom vermelho em contraste com o preto e branco que domina o restante da cena, além do traço do desenho, nervoso e intrépido. Cada qual a seu modo fala sobre a violência do sistema escravista.

N. Olazabal- La suerte del mayoral

N. Olazabal- La suerte del mayoral.

Há também outras que falam sobre a memória, como: Interiores de La Habava vieja, de Julia Valdez, que traça seu percurso por meio das sensações provocadas pela cor e a textura em conjugação com a ação do tempo ou ainda em Postales de la Guerra de Alex Esquivel, que a partir de um postal evidencia aspectos da fotografia, sublinhando e retrabalhando elementos.

F. Julia Valdes - Interiores de la Habana Vieja

F. Julia Valdes – Interiores de la Habana Vieja

A religiosidade esta presente também aparece. Seja por meio da representação idílica de figuras da Santeria em Leonel Morales ou ainda o catolicismo cubano de Ressurreccion de Rafael Queneditt.

Leonel Morales

Leonel Morales.

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Rafael Queneditt. Ressurreiccion.

Por fim, dos contemporâneos chama a atenção, sobremaneira, El Jardin del Ardoso de Douglas Perez. Sua critica com relação a mercantilização do corpo negro é bastante incisiva.

L. Douglas Perez - El jardin del alardoso.

L. Douglas Perez – El jardin del alardoso.

M. Alexis Esquivel - Postales de la guerra.

M. Alexis Esquivel – Postales de la guerra.

 

 

 

A ironia do título é o verniz que por fim, ressignifica a experiência artística desse grupo. O nome Drapetomania refere-se a um termo produzido pelo racismo cientifico do século XIX. Esse deriva do grego δραπετης (fugitivo), μανια (mania, loucura). Cunhado pelo médico Samuel A. Cartwright (1793-1863), era, segundo este, uma doença que acometia escravos que tinham, veja o leitor, o inconveniente hábito de fugir. Trata-se, portanto, de um esforço intelectual para recobrar vozes negligenci(silen)adas.

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