Stand Up

Por Kleber Amancio

One son died, his spirit is revisitin’ us

Truant livin’ livin’ in us, resistance is us

That’s why Rosa sat on the bus

That’s why we walk through Ferguson with our hands up

When it go down we woman and man up

They say, “Stay down” and we stand up

Os versos do rapper Common, citados na epígrafe, condensam o tom da narrativa adotada por Ava DuVernay em Selma – Uma Luta pela igualdade (EUA, 2014). A película trata de um célebre episódio da contenda pelo fim da restrição às liberdades e aos direitos civis africano-americanos. Ajusta o foco sobre os acontecimentos ocorridos em 1965 na cidade que dá título ao filme; mais precisamente, nas três passeatas pacíficas agenciadas por manifestantes, liderados por Martin Luther King Jr., rumo à capital do estado do Alabama, Montgomery. Ressaídas são a figura de Dr. King, àquela altura recém-laureado com o prêmio Nobel da Paz, e suas estratégias de persuasão para que o então presidente Lyndon B. Johnson cedesse e assinasse o Voting Rights Act – a legislação que proibiria, enfim, as práticas eleitorais discriminatórias de motivação racial (notadamente nos estados do Sul, onde eram exercidas por meio das Jim Crow).

Selma aproxima-se, em alguns aspectos ao menos, de dois outros filmes recentes, também conduzidos por diretores africano-americanos, e que abordam temas afins à história da população negra nos Estados Unidos. Refiro-me a O Mordomo da Casa Branca (EUA, 2013) de Lee Daniels e 12 anos de escravidão (EUA, 2013) de Steve McQueen. A partir do ponto de vista de protagonistas subalternos, as três películas proporcionam uma experiência que ouso nomear hiper-realista. Os diretores não se furtam a visitar a violência física e psicológica às quais suas respectivas personagens foram submetidas. Mais do que sugerir ela é evidenciada, sem mitigar. Cenas como a queima do “ônibus da liberdade”, presente no filme baseado na vida de Eugene Allen, a banalidade do estupro promovido pelo senhor de Patsey na narrativa de Northurp, ou ainda o policial que atinge um ativista de cócoras na fita de DuVernay, não somente chocam pela crueza dos desenlaces projetados na tela, como cativam a empatia da plateia diante do horror. Hiper-realista, pois, o detalhamento torna a representação sensorialmente tangível, mais concreta; uma versão bem apurada do visível. Num diálogo aberto com Isso redunda na ilusão de que estamos diante de uma realidade que nos é mais próxima; tornamo-nos seus aliados. A seus algozes a fala apenas é outorgada para que externem seus preconceitos e ferocidade, posto que o silenciamento fora historicamente imposto ao grupo em quem por hora incide-se luz. O efeito é alavancado ainda pelo ambiente minuciosamente tecido desde o princípio: nas três peças, as personagens principais são introduzidas como pessoas educadas, com laços familiares sólidos e alguns sonhos. Suas vidas são sumariamente interrompidas e (ou) estorvadas por conta de um elemento alheio às suas vontades, seja o racismo institucionalizado ou ainda o sistema escravista. Porém, (e aí está o grande ponto de convergência dessas estórias) encontram meios criativos de conquistarem seus escopos, mesmo que o inimigo se agigante como a Hidra. Sua resiliência e engenhosidade avultam-se, cortam-lhe as cabeças.

Apesar de a narrativa de Selma ocupar-se em grande medida das façanhas de Dr. King, não se trata de sua biografia, tampouco opta pelo fácil caminho de personalizar conquistas coletivas. Embora fosse notável orador, com grande poder de mobilização e convencimento, o filme constrói-o sobriamente, sem heroísmos desnecessários ou deslumbre.

A diretora Ava DuVernay esteve em Cambridge (MA) à convite do Hutchins Center for African and African American Research, instituto filiado à Harvard University, no dia 19 de janeiro último, data em que os Estados Unidos celebra o feriado dedicado à Martin Luther King Jr. Após a exibição de Selma, iniciou-se um interessante debate. A diretora usou esse espaço para responder a certas críticas que vêm recebendo ao longo dos últimos dois meses.  Nos seus dizeres: “O filme não é perfeito, mas eu penso que ele é próximo do que a maioria das pessoas acha que um filme histórico pode ser, algo que respira e vive”.

Para além dessa contenda, há de se reconhecer que o filme acerta no que há de mais crucial nesse processo: Dr. King conseguiu articular um discurso revolucionário baseado na não violência; um discurso que impeliu o mais significativo progresso na luta pelos direitos civis durante todo o século XX. E tudo isso se baseando em três princípios básicos: negociar, manifestar-se e resistir. É uma lógica que busca se ajustar à forma de se fazer política nos EUA. A cena em que Dr. King e Lyndon Johnson cumprimentam-se abaixo de um quadro de George Washington encerra o espirito dessa empresa.

selma2

Dr. Martin Luther King Jr. (David Oyelowo) and President Lyndon B. Johnson (Tom Wilkinson) in “Selma”

O link entre Ferguson e Rosa Park termina por explicitar algo que faz reavivar os debates envolvendo raça, direitos civis e cidadania na sociedade norte-americana. Selma, longe de buscar no passado as origens de um presente em que essas tensões tenham sido suplantadas, é sintoma de que esse assunto ainda é latente e contribui na medida em que traz essa discussão à superfície, colaborando para a desconstrução do racismo.

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