“Pride” – (Fora e dentro I)

Por Patricia Freitas 

Eu cheguei em Nova Iorque para o meu estágio de pesquisa de seis meses com a certeza de que aqui eu estaria em um espaço de liberdade e respeito às diferenças. Em um primeiro momento, de fato você percebe uma ampla vontade de apreciar e respeitar os outros em suas mais abrangentes singularidades. Nas prateleiras dos mercados todos os “sem” que se pode imaginar: sem-gluten, lactose, carne, álcool, nozes, soja, e por aí vai. No metro, engravatados e hipsters, pessoas dançando, up e downtown all together.

Temos a clara sensação que não há outsiders, todos estão na margem, na fronteira entre o aceito e o marginalizado. Na verdade é quase um tanto obrigatório ter um lado fora da normalidade. Mas com um pouco de tempo é possível perceber que há sim aqueles que ficam realmente de fora. E não me refiro apenas aos sem-teto que passam as noites esquecidos na beira dos bancos, ou ainda dos que passam de trem em trem exibindo suas feridas de guerra. É algo mais sutil, discreto.

Com apenas um mês morando aqui, eu fui a uma sessão de cinema gratuita, feita para promover o filme “Pride” (2014), escrito e dirigido pelo inglês Matthew Warchus. O filme narra a história de um grupo de militantes gays que decide arrecadar dinheiro para ajudar a greve dos mineiros contra a linha dura da Margaret Tatcher. A história, que é baseada em um evento real, nos comove e é contada de modo envolvente. As personagens superam a caracterização caricatural e mostram perfis complexos. É um daqueles filmes que fazem a gente sair do cinema com uma boa sensação, de final feliz. Passada a boa vibe, me veio uma espécie de inquietação.

Parte da sacada do filme é mostrar o quanto os mineiros resistiram em aceitar a ajuda vinda de homossexuais, aludindo ao próprio título do filme. Pride significa orgulho. Orgulho, amor-próprio, integridade, dignidade, identidade… são todos lados desta história e tudo me levava também para a minha própria condição na cidade de Nova Iorque. Eu sou uma estrangeira. Isso por si só já me levava a pensar na minha condição como fora, a definição do outsider. Mas isso vinha misturado como uma sensação muito familiar, de aceitação, de quase inclusão. Eu falo inglês, mas quando eu abro a boca, vem a sutileza a que me referi antes. Eles sabem que não sou daqui e, embora exista muita polidez no tratamento e uma certa empatia com brasileiros, a fronteira ainda está lá, posta. Um tanto translúcida, mas ainda impondo sua existência.

“Pride” se passa nos anos 80, mas obviamente fala sobre a gente. Nossa enorme vontade compassiva de demolir as barreiras, e observar as necessidades dos outros como as nossas próprias. Mas também mostra nossa falta de ferramentas, nossas limitações, e como mesmo depois de muitos terem lutado no passado – e temos realmente que reconhecer que isso fez e faz muita diferença em como agimos hoje – a barreira ainda está lá.

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