Survive Style 5+

Por: Tatiana Lotierzo

É possível ressuscitar um estilo que já morreu? Ou será que os estilos não morrem? Neste caso, como sobrevivem? Survive Style 5+ (Ken Sekiguchi, 2004) se desdobra em questões como essas e vai além: transforma um estilo do passado em canal para expor conflitos atuais – os do próprio cinema e também aqueles das personagens em cena.

SurviveStyle1Lançada há 10 anos, essa comédia de humor nonsense segue a melhor tradição do cinema japonês dos anos 2000, que inclui filmes como Fish Story (Yoshihiro Nakamura, 2009) e Minasan, sayonara (Yoshihiro Nakamura, 2013): histórias que fogem aos imperativos da narrativa convencional, em que o foco recai sobre a vida banal e por vezes absurda das figuras em cena. Ao lado desses títulos, o longa de Ken Sekiguchi lida com questões de difícil resolução que emergem de situações corriqueiras e se desenvolvem em meio a referências estéticas estranhas ao tempo e ao lugar onde se situam.

Assim, as personagens de Survive… vivem como se estivessem nos Estados Unidos dos anos 1970: a decoração de suas casas, a aparência de seus bairros, suas roupas e cortes de cabelo, o Buick estampado de flores do personagem principal e a comida que comem – do roast beef, aos ovos de gema radiante e as panquecas – não poderiam estar mais ajustados a tal estética. Nem mesmo no policial que puxa uma conversa com uma das personagens numa rua deserta sai incólume. Há, é claro, exceções, como a família japonesa cujos membros não se ajustam integralmente a essa aparência (mas cuja casa, os pratos consumidos e gostos sim, a incorporam) e a publicitária Yoko, cujo visual alinha-se ao do mundo corporativo que frequenta. A apoteose do estilo é a decoração natalina que, num dado momento, irrompe em meio ao filme em luzes, pinheiros artificiais decorados e peru assado, embalados pela canção “Noel, Noel...”. Nessa estética, revela-se a profundidade da crítica de Sekiguchi e do roteirista Taku Tada ao mundo da publicidade, de onde eles mesmos saíram.

survive-style-5-plus-4Pois bem, à primeira vista tem-se um grupo de personagens que parecem consumir tais referências, tornando-as estranhamente o padrão estético de suas vidas. Já o título do filme chama a atenção para o alcance crítico da obra: Survive Style 5+ [Sobreviver Estilo 5+] sugere que o estilo pode ser uma questão de sobrevivência, mas também aponta para uma substituição do viver pelo sobreviver às crises que teimam em desenvolver-se à revelia da aparência colorida, divertida, fantástica e eufórica de playground. A partir do título, desdobra-se a estrutura do filme, que trabalha não apenas 5, mas 5+ estilos de sobrevivência. Vejamos:

Estilo 1: um marido assassina sua esposa inúmeras vezes, mas ela sempre volta para casa;

Estilo 2: a publicitária Yoko leva seu gravador para os lugares aonde vai e registra todas as ideias que aparecem – esses são os grandes momentos de sua existência;

Estilo 3: três amigos [personagem sem nome, Morishita e J.] divertem-se juntos invadindo casas alheias e gastando o dinheiro roubado;

Estilo 4: uma família-modelo compartilha os momentos da vida doméstica e lida com os problemas que aparecem depois de um show de hipnose;

Estilo 5: um matador de aluguel faz a dublagem nas conversas entre os clientes, as vítimas e seu funcionário inglês, que pergunta a todos “What is your function in life?” [“Qual é sua função na vida?”].

Estilo [plus]: o estilo do próprio filme, resgatado dos anos 1970.

ss5cap1A noção de estilo é fundamental. Para sobreviver, é preciso dotar a vida de uma estética que permita experimentar tudo aquilo que foge ao trivial, ou ser aquilo que não se é. O estilo permite transformar o banal num evento. Mas atenção: no frigir de centenas de ovos fritos com esmero pela esposa-cadáver e consumidos pelo marido-homicida, o assassinato e o novo insight para um comercial de aspirina têm o mesmo peso factual e moral: longe de constituir fenômenos com implicações diversas, equiparam-se. Se a pergunta do matador inglês incomoda [what is your function in life?], é tão arbitrária quanto as preocupações das campanhas criadas pela publicitária [Quero pão ou macarrão?] e as indagações que Morishita, recém-bronzeado artificial, lança ao matador inglês numa sauna [O trem bala é homem ou mulher?]. A propósito, o próprio matador inglês é introduzido no filme e pedido da publicitária.

No mais, numa vida de estilo não há de fato poder de decisão. Matar a esposa não resulta no triunfo da decisão de matá-la – a menos que já se tenha mudado de ideia, pois o não querer tampouco impede os acontecimentos. Diga-se de passagem, no longa o próprio suicídio está fora do alcance de qualquer decisão.

tumblr_lpjqj24C0S1qdkesjo1_400Sem entregar demais o filme, merece atenção seu anacronismo e as perguntas que introduz: a estética dos anos 1970 joga com a sensação de que as tendências chegam tarde do outro lado do mundo. Ao mesmo tempo, num país marcado pela imagem e os estereótipos do tradicional e do hiper moderno, adotar o visual kitsch é inverter tais estereótipos, reapropriando um passado possível a fim de criticar o enorme vazio que ele introduz.

Para que, afinal, ressuscitar um estilo? Talvez porque tal sobrevida possa deslocar a própria crítica, obrigando-a a rever suas categorias. Mas é possível que nada disso importe. Por baixo da aparência, o incômodo permanece e resiste. O filme e sua estranha clonagem do passado alheio encontram a canção entoada pelo grupo Cake e afirmam com ironia: “I will survive”.

Assista ao trailer, abaixo:

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