Samba Spirit (?)

Por Kleber Amancio

“Na realidade, a razão fundamental é sempre a marginalização econômica. Ou seja, o homem de origem humilde, com permanente dificuldade de acesso a uma formação cultural de nível mais ou menos elevado, em país onde o sistema educacional já é, por si só, tão elitista como carente em geral quanto à qualidade. A inexistência de um número maior de artistas plásticos de origem negra é tão real quanto sua ausência das universidades brasileiras.” AMARAL, Aracy. “Um inventário Necessário e Algumas Indagações: a Busca da Forma e da Expressão na Arte Comtemporânea.” In ARAÚJO, Emanuel (org.). A mão afro-brasileira. significado da contribuição artística e histórica. 2. ed. revista e ampliada São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/ Museu Afro Brasil, 2010. Vol.II. p.10.

O excerto de Aracy Amaral que tomo por epígrafe ainda continua verdadeiro. Naquela oportunidade a autora referia-se a uma indigesta constatação: pessoas epidermicamente não brancas possuem participação deveras reduzida na vida artística brasileira, salvo quando se fala dos “primitivos”. Mas qual seria sua razão? Embora a situação econômica da população negra no país tenha melhorado sensivelmente na última década, assim como seu acesso às universidades; ainda hoje o número de galerias de arte brasileiras que possuem artistas negros em seus quadros é diminuto. Os exemplos que temos de tão rarefeitos enfatizam essa desproporcionalidade. Além disso, obras cuja temática volta-se a discussão de uma cultura afro-brasileira e suas implicações sociais não é dos assuntos mais apreciados pelo deus mercado. Um dos anátemas que daí decorre pode ser verificado na curadoria da exposição: “O espirito do Samba: A arte Afro Brasileira Moderna”, que aconteceu esse ano no Fine Arts Museum de Boston. Com obras de artistas como Heitor dos Prazeres, Waldemiro de Deus e Maria Auxiliadora da Silva, a mostra apresentou aspectos de certa “cultura afro-brasileira”, tendo a arte moderna como suporte. Embora as personagens representadas ou a temática aludam ao universo social dessa parcela da população, nem todos os artistas são negros. Obviamente que isso não determina o que seria uma arte dita “afro-brasileira”, haja vista que o próprio termo carrega em si contradições de difícil superação, como nos aponta Roberto Conduru. Porém, há de se notar que confirmando a regra proposta por Amaral, os que ali estiveram representados não frequentaram academias ou ateliês originalmente; por circunstâncias da vida é que toparam a arte. O que não desqualifica, evidentemente, a qualidade desses artistas, pelo contrário, é por terem passado por outros caminhos e processos de aprendizagem que suas obras singularizam-se. A despeito disso, a exposição apresenta ao público bostoniano parte da recém-adquirida coleção John Axelrod. Mas do que se tratam essas obras exatamente?

As carrancas de Agnaldo Manoel dos Santos, por exemplo, aproxima-nos das crenças de religiões afro-brasileiras, de um catolicismo sincrético e de uma arte tradicionalmente popular. Mais do que a forma simplificada diria que trata-se de concisão.  Expressão, por sinal, é o que não falta, tanto quanto em Maria Auxiliadora da Silva. Esta revela, a partir de eventos quotidianos, superficialmente singelos e desimportantes, a existência de laços de solidariedade étnica entre os integrantes de uma mesma fazenda (tanto na bonança quanto na tragédia); é a flor da senzala a que Charles Ribeyrolles não enxergou. Signo de sua auto afirmação enquanto grupo social, acordo de sua humanidade. Heitor dos Prazeres transmite por meio da relação entre os corpos e da vivacidade de sua paleta a experiência sensorial das festas populares. Difícil que se olhe para suas obras e não se contagie pelo frenético movimentar do frevo. Jenner Augusto da Silveira, com o seu operário negro, nos apresenta um trabalhador que interage diretamente conosco. Fita-nos, questionador. E nós observadores, ficamos divididos entre olhá-lo de volta e o prato vazio, que nos separa. 

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Agnaldo Manoel dos Santos. Homem com cachimbo e chapéu. década de 1950. Madeira. Registro Fotográfico: Kleber Amancio.

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Maria Auxiliadora da Silva. Plantation. 1971. Oléo e técnica mista sobre tela. Registro Fotográfico: Kleber Amancio.

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Maria Auxiliadora da Silva. O incêndio. 1973. Oléo e técnica mista (incluindo cabelos). Registro Fotográfico: Kleber Amancio.

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Heitor dos prazeres. Frevo da Casa Verde. 1958. Óleo sobre tela. Registro Fotográfico: Kleber Amancio. 

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Jenner Augusto da Silveira.Operário. 1955. Oléo sobre tela. Registro Fotográfico: Kleber Amancio.

Interessante notar que uma instituição estrangeira esteja interessada em discutir esses temas, quando as nacionais, há muito, tem se furtado. Exceto, obviamente, quando são espaços que nasceram com esse propósito, como o Museu Afro Brasil. O “samba spirit” do título aparece como uma forma de ordenação (ainda que fictícia e limitadora) de elementos estranhos à cultura dos curadores e do público alvo. Esse olhar estrangeiro, ao mesmo tempo, promove o encontro de peças que quando somadas, possibilitam o estabelecimento de diálogos em outras direções, abrindo trincheiras de interpretações que talvez não fossem percebidas noutras circunstâncias.

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