Racismos (III)

Terceiro e último post da série sobre Yakhal’inkomo, de Ayanda Mabulu, e suas controvérsias. Leia também: A carapuça e a censura (I) | Por trás das cortinas (II) 

Por: Tatiana Lotierzo

O olhar não é neutro. Antes, a visão forma-se numa confluência entre posições que ocupamos em distintos momentos – lugar de gênero, de classe, daquilo que se convencionou chamar de raça, e que dizem respeito ao fato de alguém sentir-se ou não parte do mundo, em pé de igualdade com as demais pessoas que ali se encontram. No meio do caminho para a igualdade, tem uma pedra – e ela se refere à existência de poderes abertos ou velados, comandando o espetáculo; assimetrias, desigualdades impostas de modo tácito, que extrapolam a esfera da equidade, anunciando desafios maiores no horizonte. Isto nos interessa, na medida em que nem sempre a pessoa que detém de uma posição de prestígio, possui o poder que sua imagem faz parecer.

O tema tangencia a tela Yakhal’inkomo, de Ayanda Mabulu. Jacob Zuma, presidente sul-africano, é uma liderança negra num país onde o racismo se constituiu historicamente como um fenômeno institucionalizado, na vigência do colonialismo e do apartheid. Pois as exigências que uma liderança negra enfrenta são distintas daquelas que uma liderança branca enfrenta: dependendo da situação, resvalam no racismo. Há que atentar para o quanto a personalidade negra em questão é vista apenas como representante do conjunto da população negra, enquanto a branca pode ser vista como representante do conjunto da população – em geral, e não apenas da branca [Henry Louis Gates e Luis Felipe K. Hirano discutem bem o assunto].

Vamos por partes. Em entrevista, Mabulu tece uma reflexão elucidativa: “sabemos hoje quem é o problema, a política é o problema e nos estão fazendo culpar uns aos outros, rotulando-nos e nós estamos caindo em uma armadilha. Isto deveria ser extirpado, com suas raízes, agora” [grifos meus]. A fala torna explícito o peso de um tipo de racismo que, a despeito da existência de lideranças negras – uma conquista que deve ser valorizada e ampliada –, impele a um confronto que fragiliza a imagem da população negra em geral: Zuma, por suas atitudes, passa a ser tratado pela opinião pública como um mau exemplo; o ponto é que não exemplifica apenas um mau líder, mas um líder negro – e nesse sentido, Yakhal’inkomo é bastante irônica ao retratar o jornalista em cena como branco. Revela-se aí a difícil posição da liderança negra, entre o exemplo virtuoso, a governabilidade possível e a falibilidade humana – que, repita-se, é um peso que não recai sobre o político branco do sexo masculino, que tende a ser visto como a norma [mas sim, também recai sobre as mulheres e outros grupos chamados “minoritários” na política].

Mas além disso, Mabulu também deseja fazer frente a um segundo tipo de racismo, que tem relação com a privação de direitos e serviços fundamentais a um grupo, em razão de sua “raça”. Diz ele:

“O tema do racismo ainda é algo que merece ser levado aos supremos tribunais (…). Quando você priva as pessoas de seus direitos humanos básicos, quando as priva de coisas simples (água limpa, por exemplo), quando ainda as submete ao bucket system, quando as pessoas mais pobres são jogadas na frente dos banheiros do outro lado da câmara municipal na hora da parada da Copa do Mundo de 2010, apenas porque são ‘sujas e mau-cheirosas’ (…) Quando sou revistado na praia pela policia porque eu não pareço ser alguém que dirige um carro e sou negro, o que é isso? (…) Racismo! (…) Agora que nos colocaram um código de cor. Racismo o c**o! Aqueles que estão no poder são os que ainda hoje são racistas”.

Logo, uma equação conflituosa se estabelece. A incidência dos dois racismos na vida sul-africana abre espaço para um jogo de censura e auto-censura, uma vez que envolve posicionamentos difíceis frente a um dos maiores tabus atuais. Ao transgredir fronteiras, negros e brancos também acenam para os limites da própria crítica em meio ao sistema. Cada grupo, segundo um olhar informado por sua posição em termos de cor/”raça”, gênero e outros atributos.

Yakhal’inkomo não constitui um caso isolado de polêmica envolvendo obras de arte e lideranças políticas no país. Em maio de 2012, o artista branco Brett Murray expôs um retrato-paródia, em que o presidente Zuma repete a pose de Lênin numa das imagens mais icônicas do líder russo, mas agora com os genitais à mostra.

Brett Murray. The Spear [A Lança], 2010, 185 cm × 140 cm, ao lado da icônica imagem de Lênin que o inspirou.

Brett Murray. The Spear [A Lança], 2010, 185 cm × 140 cm, ao lado da icônica imagem de Lênin que o inspirou. Fonte: http://mype.co.za/new/jacob-zumas-spear-how-does-it-compare-to-lenin/13825/2012/05

Pouco depois, próprio Mabulu levou à exposição Our Fathers o quadro Umshini Wam [Armas de Destruição em Massa], outro retrato do presidente Zuma com o pênis exposto, mas agora usando os trajes tradicionais zulu, numa referência assumida ao casamento do líder com sua terceira esposa.

Ayanda Mabulu. “Umshini Wam” (2010), ao lado da foto que a inspirou. A foto mostra Zuma em performance de dança tradicional zulu, durante seu casamento com a terceira esposa. Fonte: http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/africaandindianocean/southafrica/6934005/Jacob-Zuma-weds-third-wife-in-traditional-Zulu-ceremony.html

Ayanda Mabulu. “Umshini Wam” (2012), ao lado da foto que a inspirou. A foto mostra Zuma em performance de dança tradicional zulu, durante seu casamento com a terceira esposa. Fonte: http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/africaandindianocean/southafrica/6934005/Jacob-Zuma-weds-third-wife-in-traditional-Zulu-ceremony.html

Nos dois casos, o Congresso Nacional Africano (ANC) tentou retirar os trabalhos de exposição, alegando serem imagens pornográficas e desrespeitosas. Além disso, a obra de Murray foi alvo de ataques raivosos: dois homens, posteriormente detidos, picharam uma cruz vermelha sobre os genitais e o rosto do retratado para, em seguida, apagar a figura quase por completo com um jato de spray de cor preta. Na mesma galeria, um terceiro homem foi preso após tentar escrever, nas paredes, a palavra “respeito”.

A censura a Murray suscitou acusações – inclusive do próprio ANC – de que o artista havia sido racista ao retratar Zuma; o debate acirrou-se com a lembrança de outra tela de Mabulu, anterior à de Murray: a polêmica Ngcono ihlwempu kunesibhanxo sesityebi [Melhor ser pobre do que uma marionete rica], em que Zuma e outras figuras de peso internacional, como Obama, P. W. Botha – ex-primeiro ministro e presidente da África do Sul –, George W. Bush, Desmond Tutu, Nelson Mandela, Robert Mugabe – ditador do Zimbábue – e o papa Bento XVI se encontram reunidos em uma espécie de Santa Ceia, em celebração a duas cabeças de homens brancos e idênticos que se beijam numa bandeja de metal, entre um cálice dourado de aparência episcopal e um copo d’água, aludindo ao sacrifício cristão.

Ayanda Mabulu. Ngcono ihlwempu kunesibhanxo sesityebi (2010). Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Ngcono_ihlwempu_kunesibhanxo_sesityebi_(painting).jpg

Ayanda Mabulu. Ngcono ihlwempu kunesibhanxo sesityebi (2010). Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Ngcono_ihlwempu_kunesibhanxo_sesityebi_(painting).jpg

Em pé, à esquerda, o presidente sul-africano tem novamente o pênis à mostra, mas dessa vez o órgão se encontra enfaixado e amparado por uma muleta. Seu braço esquerdo é metálico e tem um gancho na ponta – de modo que o líder tenta arrancar, em vão, uma flecha do pescoço. Zuma, de feição ingênua, veste um chapéu de lobo [o cordeiro em pele de lobo?] e deixa ver a tradicional faixa zulu de pele leopardo na cabeça. À direita, o Papa Bento XVI, em traje ecumênico, segura Desmond Tutu no colo. O arcebispo está nu. As demais figuras são retratadas em toques surrealistas: Obama lambe um ferro de passar; Mugabe martela um prego pouco abaixo do próprio nariz. Mandela, com o pescoço em carne viva, tem no rosto a expressão da angústia, enquanto é acossado, quase sufocado pelo sorridente George W. Bush, de mãos gigantes e pulsos enfaixados. À direita, ao fundo, um chimpanzé tenta remover a mão de Bush do rosto de Mandela, junto a um cavalo, de perfil assustado.

A cena é rica em referências religiosas, que também lhe conferem um tom anticlerical. Zuma, por exemplo, remete às imagens canônicas de São Sebastião com flechas no corpo [ver exemplos aqui e aqui]. Os pulsos cortados de Bush aludiriam à crucificação e, entretanto, tudo sempre pode ser uma farsa, em tons carnavalescos.

Para finalizar, um porco devora um peixe no chão. Se o peixe é símbolo do cristianismo, o porco tem desenhada no quadril a bandeira sul-africana dos tempos do apartheid. A mesma referência está presente em outras pinturas de Mabulu que, segundo o artista, querem “mostrar a sujeira daqueles tempos”.

Feitas as introduções, uma reflexão: as telas perfazem um diálogo entre si e se aproximam em alguns aspectos – notadamente ao tocar o tema da sexualidade, a partir de um olhar heteronormativo e, diga-se de passagem, não isento de preconceitos de gênero. Quais são, então, as diferenças entre elas?

Na primeira tela de Mabulu, tem-se um confronto direto com Zuma, que se torna comparável apenas a si mesmo, em performance pública. Enquanto isso, no quadro de Murray, Zuma é apenas um arremedo de Lênin – a paródia, reduzindo o líder negro a outra personagem, branca e supostamente exemplar.

Já em Ngcono ihlwempu kunesibhanxo sesityebi, tem-se a mesma impressão suscitada por Yakhal’inkomo, de que os brancos comandam um espetáculo em que os negros são colocados em situações constrangedoras, evocativas de um persistente legado do colonialismo em tempos atuais. Assim, as cenas compostas pelos dois artistas criticam o presidente, mas a partir de pontos de vista bastante diferentes.

Isto abre espaço para uma série de questões, de difícil resolução:

– A que público(s) se dirigem as telas de cada artista?

– Quem ri da paródia de Murray? E dos outros quadros?

– Que fundamentos explicam as diferenças de olhar entre elas?

– Como elaborar novos modelos de crítica política, capazes de evitar e fazer frente ao(s) racismo(s)?

– De que maneira avançar, uma vez conquistada a equidade política e imagética, rumo à igualdade? Que papel cumprem as imagens a tal respeito?

Evidentemente, respondê-las requer um amplo e importante debate. E evidentemente, os mesmos quadros ainda carecem e merecem ser vistos sob muitos outros aspectos, sob o intuito de elaborar tais respostas.

Se tais propósitos escapam aos limites desta análise, um último caso merece nossa atenção, antes de finalizar o post. Em 2013, uma galeria de Jo’burg decidiu retirar de exposição a tela Simunye, de autoria do artista branco Kobus Myburgh. O quadro mostra Jacob Zuma ao lado de Nelson Mandela, em frente a quatro homens negros. Ambos os líderes são retratados como brancos. O autor declarou:

“Não é de modo algum uma pintura de protesto. Ela tem uma mensagem positiva, mostrando que somos todos similares. É por isso que intitulei a pintura Simunye – a palavra zulu para ‘somos um’. Somos e permanecemos iguais, independentemente da cor de nossa pele”.

Nem é preciso reforçar o quanto a polêmica está instaurada no mundo das artes visuais sul-africanas. Entretanto, no conjunto das questões suscitadas aqui, a fala de Myburgh é desconcertante: primeiro, porque mostra o peso do passado de segregação na formação de um olhar artístico; segundo, porque no uso de sua liberdade de expressão, o pintor avança em sugerir que a igualdade é branca – o que sem sombra de dúvida deve ser visto com grande preocupação.

Assim  e ao lado das demais pinturas mostradas – a tela Simunye revela o ancoradouro da visão: um substrato físico, inscrito no corpo e na experiência que cada pessoa é capaz de ter a partir de sua posição no espectro de cor/”raça”, gênero, geração, e outros atributos. E acena para os enormes desafios da igualdade racial, na medida em que os exibe sob a forma de imagem e a alcunha de obra de arte.

[FIM]

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