A negra Salvador

Por: Ana Paula Alves Ribeiro

A artista plástica e cineasta baiana Mônica Simões tem, há mais de vinte anos, explorado temas que lhe são caros. Partindo do espaço doméstico, da vida privada e álbuns de retrato familiares e dos arquivos públicos, Mônica Simões tem recontado a história da sua cidade e de sua família, apostando em recursos estéticos e de memórias que acabam por narrar a construção da imagem do negro na Bahia, sua presença na cidade, a influência da população afro-baiana. Negros (2009), documentário no qual trabalha com material de arquivo, tem um desenho sonoro que conta, muitas vezes mais que as imagens, as mudanças no discurso sobre os negros, sua busca pela autonomia, inclusive na produção de suas próprias imagens.

O filme documentário, de 52 minutos, estreou na TV em 2009 dentro do projeto DOCTV IV e se propõe a construir a imagem do negro na Bahia, por meio de imagens de arquivo públicos e privados, de 1920 a 2000. Segundo a sinopse, “o foco do roteiro não é a grande narrativa e nem a história oficial e sim as práticas, do cotidiano que surgem através de uma câmera despretensiosa”. Segue o trailer:

 

Negros se inicia apresentando a cidade, a paisagem e quem dela faz parte: homens trabalhando na praia, as negras e suas saias rodadas, baianas com panos da costa, os mercados e os mercadores, os pescadores. Corta novamente para a paisagem e seu casario e telhados, mostrando a população e sua integração e circulação no espaço: as praças, o bonde, os transeuntes, o ir e vir dos habitantes. O porto, a estiva, os estivadores, o trabalho dos negros no pós-abolição. Definida a paisagem, a partir do quinto minuto, Simões começa a mostrar que o espaço dos negros na Bahia não é apenas de trabalho. Carnaval, procissões, sociabilidade na porta de casa, a rua, os negros vão ocupando a cidade. “Nas ruas e nos bailes ninguém pára, ninguém fica triste. Viva o carnaval”. Do trabalho braçal e nos mercados, ao serviço público (polícia militar, bombeiros), passando pelo cuidado com os doentes mentais e presidiários, os negros estão em todos os lugares, cuidados (em um discurso apresentado pelo áudio) pelo Estado, que não os desampara. Imagens e sons se dissociam, ora construindo um discurso convergente, ora as imagens desmentindo o discurso estatal, nunca o contrário.

monica simoes 2Com o 13º minuto, chega Getúlio Vargas e a década de 1930, e com ele filmes de arquivo que apresenta a prática da educação física na escola, a ocupação de parques abertos para todos os turnos. Educa-se a mocidade do Brasil Novo “para que se cumpram os gloriosos destinos”. Jovens praticando esportes, jovens negras ‘desfilando’. E os trabalhadores, tão importantes no discurso de Vargas, na “reconstrução” e manutenção da cidade. Com Vargas também chega duas esferas: a religiosa, apresentada pelo Candomblé, a lavagem do Bonfim e as oferendas e a de um cotidiano de trabalho, no âmbito privado, que sugere que as mulheres, as mesmas eu praticam o candomblé, estão nas ruas em outros momentos como domésticas e babás, freqüentando igrejas, carregando crianças, servindo de tiro ao alvo, sendo fotografadas e filmadas com as famílias para as quais trabalham com alguma frequência. Crianças brancas, colos negros. Crianças negras em roupas de festa (de domingo) ou de diversão (nos carnavais) sozinhas.

E os homens, também (supostamente) praticantes de Candomblé, aparecem como protagonistas dos sambas de roda, nas capoeiras e no mar. O som do mar, do berimbau e dos toques afro-brasileiros se misturam. Sagrado e Profano, cristãos (católicos e evangélicos) e candomblecistas, Privado e Público, Casa e Rua passam a se misturar de forma constante no filme até o 25º minuto. A cidade é negra, e ironicamente, a mensagem é clara.

monica simoes 3Um corte: Durante os dez minutos seguintes, vemos a cidade em uma acelerada transformação. Anos 1960/70, ditadura militar, sons de obras, modernização, empobrecimento dos negros, sons do mar substituídos por sons urbanos, sincretismo se rompe e os espaços estão delimitados: Mãe Menininha do Gantois é a matriarca baiana, mas há um padre negro na diocese. Mudança no carnaval, no ritmo, na diversão. Mulheres mais sensualizadas, corpos nus, cores mais quentes. Os registros em P&B são definitivamente abandonados.

Dos Filhos de Gandhy, nos fala Gil: “É o sagrado, é o profano, é Oxalá orando para que Exu faça seu trabalho, é uma coisa linda e é por isso que estou aqui”. Anos 1980, Axé Mandela (que seria libertado na década seguinte, nos anos 1990), carros, ônibus mais modernos e cortes de cabelo mais africanos. Imagens de um casamento interracial, casamentos coletivos, registros de uma família. Negros tomando sol – “negro tem direito a tomar sol?”, Mãe Olga de Alaketu. Periferização da cidade e paisagem muda mais uma vez.

Os registros passam a ser particulares. Festas de família, missas de ação de graça, casamentos, aniversários, reuniões. Black music, o orgulho das tranças, demonstrações de afeto, relações intergeracionais, bolos de frutas, felicidade, celebração. As câmeras portáteis e a presença delas nas famílias negras de classe média, faz com que se mude o registro. Da rua para a casa, do público para um doméstico cotidiano, os negros se empoderam e ganham a possibilidade de criar e construir suas próprias representações e a pensar criticamente sobre o racismo presente nas imagens.

Chamou-me atenção o uso dos arquivos, as cores das formas que foram utilizadas na edição, a presença do que era doméstico no espaço público, principalmente empregadas e babás negras. A utilização dos arquivos de famílias negras, de classe média, mais para os anos 1980 e a maneira como eles se empoderam e se apoderam das suas próprias imagens e memória.

É um filme onde os arquivos visuais dialogam com os arquivos sonoros e pontuam tempo, espaço, personagens, política, a cidade e seus moradores. A realizadora recusa o discurso da construção da nação, já constituído no imaginário da mestiçagem e marca a diferença – de classe, de status, de condições de sobrevivência, de emprego –, apontando caminhos de trabalhos: negros podem servir ao Estado como militares, podem cuidar da produção (pesca), do comércio (mercados/baianas doceiras/acarajés), podem ter uma religião (Candomblé) e se divertir. Nas primeiras imagens, a presença dos trabalhadores no mar era uma constante. Há, ao longo do filme, um abandono gradual do mar e a presença constante em terra – obras, construção civil, urbanização, trabalhos urbanos.

As ondas do mar são substituídas por ruídos – varrer de calçadas, carros, trânsito, britadeiras, marretas dos calceteiros que consertavam/constroem calçadas, barulho/sons urbanos.

Porém, a dimensão privada na vida dos negros só emerge quando as handcams aparecem. Só conhecemos as casas dos negros quando eles têm posse da câmera e se tornaram para além de atores, autores das suas imagens.

São três as dimensões que me fazem pensar o que a obra poética e cinematográfica de Mônica Simões pode nos contar e contribuir para o debate de uma antropologia que se proponha do/no/com o cinema:

1) O que foi produzido para dentro (do grupo, da família, do Estado) como registro.

2) Como tem sido o processo de registro da memória afro-diaspórica e a constituição de um conjunto de filmes de arquivo que lidem com esta questão.

3) Quais são as considerações antropológicas – e (auto)etnográficas – presentes neste filme.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s