Por trás das cortinas (II)

Segundo post da série sobre a polêmica em torno da censura à tela Yakhal’inkomo na Jo’burg Art Fair 

Por: Tatiana Lotierzo | Leia o primeiro post da série aqui Foto do topo: Ayanda Mabulu usa camiseta de protesto ao lado da tela censurada Yakhal’inkomo

A expressão zulu Yakhal’inkomo significa o pranto, o grito, ou o lamento do homem negro, mas também se refere ao mugir sonoro emitido pelas vacas e bois no curral quando outro animal é abatido. Além disso, Yakhal’inkomo é o título de uma coletânea de poemas lançada pelo escritor, diplomata e militante comunista Mongane Wally Serote em 1972, cuja mensagem é tanto o sofrimento silencioso da humanidade, como a solidariedade que emerge das condições adversas. O mesmo termo também serve de título para o primeiro álbum do saxofonista negro Winston Mankunku Ngozi, de 1963. Em todos os casos, a palavra faz referência direta à luta e resistência negra ao apartheid.

Na tela homônima de Ayanda Mabulu, tais sentidos se reforçam. “Eu estava assistindo ao chamado ‘esporte’ em que um toureiro espanhol matava um touro sob o olhar dos espectadores e isso me lembrou de como os mineiros de Marikana foram brutalmente assassinados a sangue frio e eu quis questionar o papel que nossos líderes estão desempenhando para mudar a situação. A pintura é sobre a dignidade humana”, declarou o artista

Em agosto de 2012, a polícia se uniu a agentes de segurança privada para conter uma greve de trabalhadores de uma mina de platina administrada pelo grupo empresarial Lonmin, em Marikana. A repressão resultou na morte de 44 pessoas e em menos 78 feridas, de modo que o episódio passou a ser considerado o caso mais grave de uso de forças de segurança contra civis desde 1960.

Voltemos ao quadro mais uma vez.

Ayanda Mabulo. Yakhal’inkomo (2013). Óleo sobre tela, 250cm x 350cm. Extraído de: http://wangthola.tumblr.com/post/79855726891/ayanda-mabulu-yakhalinkomo-black-mans-cry

Jacob Zuma. Yakhal'inkomo (2013), detalhe.

Jacob Zuma. Yakhal’inkomo (2013), detalhe.

Charles e Elizabeth referem-se imediatamente ao colonialismo. Zuma, militante do Congresso Nacional Africano (ANC, por sua sigla em inglês) desde 1959 e membro do Partido Comunista Sul-Africano de 1963 a 1990, foi condenado a 10 anos de prisão em 1963 por conspirar contra o governo do apartheid. Cumpriu pena ao lado de Nelson Mandela e outros ativistas em Robben Island. Contra seu passado revolucionário, em tempos recentes, o atual presidente da África do Sul tem sido visto como alguém que esqueceu a própria história, alinhando-se aos interesses dos investidores estrangeiros no país.

Cyril Ramaphosa. Yakhal'inkomo (2013), detalhe.

Cyril Ramaphosa. Yakhal’inkomo (2013), detalhe.

O vice-presidente, Cyril Ramaphosa, também traz no currículo as lutas contra o apartheid. Ex-líder sindical, ele foi um dos fundadores do Sindicato dos Mineradores da África do Sul. Contudo, hoje o político integra o Conselho Diretor da Lomnin – razão pela qual passou-se a vê-lo como um dos mandatários da chacina que ocorreu em Marikana.

Julius Malema, por sua vez, tem sido constantemente punido por sua postura aguerrida e pouco condizente com as modalidades de performance que dominam a política sul-africana atual. Expulso do ANC sob a acusação de tentar desmoralizar o partido, também tem provocado em distintas ocasiões constrangimentos públicos ao questionar a imagem de harmonia entre brancos e negros no país. Em 2011, ganhou notoriedade sua condenação na justiça por incitar o ódio, depois de cantar, em meio a um discurso para universitários, Dubul’ ibhunu (Mate o Bôer) – sequência de versos de uma famosa canção anti-apartheid, proibida pelo ANC em 2010.

Julius Malema (à esquerda). Yakhal'inkomo (2013), detalhe.

Julius Malema (à esquerda). Yakhal’inkomo (2013), detalhe.

Na tela, Zuma parece não saber se portar com a sobriedade que o momento exige – como se não entendesse o que está fazendo. As investigações sobre o massacre de Marikana revelaram que a maioria dos mineradores mortos levou tiros nas costas, o que confere grande pesar realista à cena: não só a espada do toureiro está a ponto de cravar as costas da vítima, mas também porque o presidente e seu cão avançam por trás do homem-touro. Com ares de conspiração, Malema comenta o que vê com um misterioso homem nu da cintura para baixo, que tem um olho fechado e outro aberto e cobre as partes íntimas com um jornal.

Assim, o quadro traz consigo uma história de tensões e impasses pós-apartheid na África do Sul. Hoje, o mesmo ANC que reuniu personalidades com posturas tão distintas, como Mandela, Serote, Zuma, Malema e Ramaphosa governa o país. A pista sobre o álbum Yakhal’inkomo, de Mankunku Ngozi, faz lembrar uma anedota popular sobre o músico: em 1964, ele teria participado de uma performance histórica, numa big band formada por brancos. Fazê-lo em pleno apartheid era algo transgressor e, para tanto, o músico haveria sido obrigado a se esconder atrás das cortinas do palco. Invisível, escaparia à punição imposta por lei.

Logo, uma mensagem silenciosa parece rondar a pintura, que com isto discute a postura de líderes que lutaram pelos direitos da população negra: quase 20 anos após o fim do regime de segregação racial, as lideranças negras estão no olho dos holofotes. Contudo, parecem esconder, por trás das cortinas, interesses divergentes que comandam o espetáculo. Uma questão permanece em aberto, e tem suscitado polêmica no país: resta entender o quanto esse paradoxo político está relacionado às velhas e novas modalidades do racismo.

[continua…]

Leia também: 

A carapuça e a censura.

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