Poesia

Por: Luis Felipe Kojima Hirano

Como escrever uma poesia, quando a memória já está debilitada e quando frequentemente os substantivos e verbos fogem da nossa mão? Como reconstruir uma história injusta, quando todos querem esquecê-la? São essas questões que rondam os pensamentos de Yang Mi-Ja (Yoon Jeon-Hee), uma senhora de 66, em fase inicial da doença de Alzheimer, que vive com seu neto adolescente Jong-Wook (Lee David) numa pequena cidade sul-coreana. O dia-a-dia de Yang se restringe a cuidar de um velho homem já debilitado para complementar sua aposentadoria e do neto, que há tempos não vê a mãe. Esta trabalha em outra cidade desde que se divorciou do pai do menino.

Para aproveitar as horas vagas, Yang inicia um curso de poesia no centro cultural local – afinal, quando tinha quinze anos um professor lhe havia dito que ela tinha talento. Entretanto, no curso da vida as obrigações de mulher, esposa e avó parecem ter deixado esse sonho para trás. A vontade de brincar com as palavras retorna justo no momento em que elas se tornavam mais preciosas, quando a personagem esquece com frequência os nomes das coisas. Por essa razão, seu médico recomendará que ela faça um exame, a fim de ver se os lapsos de memória não têm uma razão mais profunda.

PoetryPara escrever um poema, diz seu professor, é necessário ver as coisas à sua volta de forma diferente. Seja uma simples maçã, a árvore ao pé da calçada, as flores no parapeito das casas, o burburinho da rua, ver tudo aquilo que era familiar no seu cotidiano, a partir de uma perspectiva renovada. Com um caderninho de notas à mão, Yang passa a descrever em linhas breves as sensações que eclodem nos seus trajetos diários.

No entanto, a velhice de Yang torna-se mais assombrosa do que a beleza que ela entrevê nas poucas flores que restam em seu caminho. Seu neto está envolvido no suicídio da adolescente Agnes, mostrado pelas primeiras cenas do filme Poesia. Ele e mais cinco meninos são acusados de estuprar durante seis meses a menina na sala de ciências da escola. A morte, até então enigmática, é desvelada pelo diário de Agnes, que testemunha a violência sofrida. Agora, os pais dos garotos e a escola, com vistas a manter as próprias reputações, procuram Yang para acobertar o caso, pressionando-a a subornar a mãe enlutada. Coagida, Yang – a única mulher entre cinco pais decididos a esconder o crime – é obrigada a conseguir um valor muito além de sua aposentadoria para pagar o suborno.

Contudo, mais do que correr desesperada para arranjar o dinheiro, Yang passa por momentos em que o espectador não sabe se ela perdeu totalmente a noção da realidade, o que seria reforçado pelos sintomas de Alzheimer. Ou ainda, se os lapsos nas interações sociais são a única forma que ela encontra para sobreviver frente a uma realidade que parece não lhe pertencer.

Nas aulas de poesia e nos saraus que frequenta, repete-se uma questão insistente, e até mesmo impertinente, entre os poetas amadores e o professor: como escrever versos tão belos? Sem uma receita pronta, aqueles que estão à volta de Yang tergiversam, como ocorre também com os passos da protagonista no decorrer da trama: agora, eles não conduzem mais da casa para o trabalho, mas se confundem com os caminhos e espaços em que Agnes costumava passar. Yang observa a escola onde ela estudava, a sala de ciência, a ponte sob a qual a menina deu cabo a própria vida e até mesmo a sua casa. Em cada trajeto, há uma parada para observar as flores de beira de estrada, o fluxo do rio ou a árvore de damasco, entre outras tantas coisas que poderiam, por um momento fugidio, oferecer algum consolo.

As pausas e intervalos um tanto errantes dão o tom para o desenrolar do enredo. O espectador espera que Yang tome uma posição mais energética em relação aos garotos e seus pais mas, coagida, ela encontra nas palavras uma forma de reconstituir a vida – a de Agnes e a sua também, a vida de alguém que fora desumanizada pelo sexismo e patriarcalismo de uma cidade que prefere fechar os olhos para a violência dos homens contra as mulheres.

Lançado em 2010 e ganhador do prêmio de melhor roteiro em Cannes no mesmo ano, Poesia é um filme extremamente atual, dirigido com uma sensibilidade aguda pelo diretor Lee Chang-Dong. Aliás, o fato de ser um diretor não é menos importante. Durante todo o filme, eu e minha esposa achávamos que a direção era de uma mulher, dada a capacidade sem igual de narrar um tema espinhoso do ponto de vista da senhora idosa. A seu modo, Lee Chang-Dong nos ensina a mergulhar nesse universo em que a diferença nos iguala e complementa, tocando-nos profundamente e cultivando nosso engajamento numa luta maior contra o patriarcalismo e o sexismo.

Assista ao trailer do filme, a seguir:

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