A carapuça e a censura (I)

A polêmica em torno da censura à tela Yakhal’inkomo na Jo’burg Art Fair

Por: Tatiana Lotierzo

Em setembro de 2013, um incidente abalou a imagem da Jo’burg Art Fair: Yakhal’inkomo, quadro do artista sul-africano Ayanda Mabulu, foi censurado pelos organizadores. Tudo aconteceu às vésperas daquela edição da mostra, uma das principais feiras de artes visuais da África do Sul, com cerca de 10 mil visitantes anuais.

“Penduramos o trabalho no dia anterior à abertura e ficou muito bom. Então, recebi uma ligação, dizendo que os organizadores não tinham ficado satisfeitos com ele e queriam retirá-lo. Ele me explicou que disseram que a obra poderia ofender aos patrocinadores da feira e outras pessoas importantes, que poderiam não gostar de ver o presidente mostrado de uma certa forma”, declarou Mabulu. Já os realizadores da Feira disseram que a censura não veio em resposta a “pressões do governo”, mas para o bem da “economia criativa”.

Como entender a censura? Vejamos a imagem:

Ayanda Mabulo. Yakhalinkomo (2013).  Extraído de: http://wangthola.tumblr.com/post/79855726891/ayanda-mabulu-yakhalinkomo-black-mans-cry

Ayanda Mabulo. Yakhal’inkomo (2013). Óleo sobre tela, 250cm x 350cm. Extraído de: http://wangthola.tumblr.com/post/79855726891/ayanda-mabulu-yakhalinkomo-black-mans-cry

Num dos cantos, príncipe Charles e a rainha Elizabeth riem. Do outro lado e também na arquibancada, o vice-presidente sul-africano Cyril Ramaphosa se diverte em companhia de um senhor branco. Na arena, um minerador corre e grita, enquanto outros homens negros – entre eles, o líder político Julius Malema (com a boina vermelha que se tornou sua marca registrada) – assistem a um espetáculo que acontece no centro da tela. Em meio ao tumulto, um fotógrafo branco procura deitar no chão, em busca do melhor ângulo.

Que passa? Um toureiro, que usa a bandeira da África do Sul como capote, se encontra a ponto de apunhalar um homem negro com chifres de touro. De shorts, sem camisa e descalço, este se encontra de joelhos, curvado para baixo e segura as pernas do algoz com a mão esquerda; a mão direita afunda na terra, feito tronco. Por trás do homem-touro, entra triunfal o presidente sul-africano Jacob Zuma. Risonho e espalhafatoso, ele pisoteia a cabeça de mais um homem negro, aparentemente uniformizado. Sob supervisão de um treinador de apito na boca e bola na mão, o político é puxado pela coleira de um pastor alemão, ávido por abater o personagem em pose de sacrifício. E parece pronto para os holofotes.

Entretanto, o fotógrafo parece ter outros planos. Vestido à paisana, como se desejasse confundir-se com as figuras mais simples na arena, sua câmera ignora os fatos: pelo ângulo em que se encontra, parece mirar apenas o rosto da vítima agonizante. Assim, as únicas feições que não podemos ver – a do fotógrafo e a do homem-touro – sugerem um sistema de anonimato de fachada, em que a decisão sobre o que mostrar cabe apenas a uma das figuras: o fotógrafo é dono da própria imagem, sujeito da ação de fotografar; o homem ao centro é apenas seu objeto.

Assim como as figuras na arquibancada, entramos no papel de espectadores do evento. Mas notamos, com pesar, que também deste ângulo, a vítima do sacrifício é um objeto. No alto, escorre a tinta do brasão do Congresso Nacional Africano (ANC, por sua sigla em inglês), que decora as arquibancadas. No chão, algumas cédulas de dinheiro alçam voo, ao sabor do vento.

Pensando dessa forma, a exposição do quadro no espaço da Jo’Burg Art Fair seria de fato uma mensagem aos patrocinadores, que diante da tela ver-se-iam como nós, parte integrante dos demais observadores do sacrifício. Daí o problema da carapuça.

[continua no próximo post]

Texto originalmente escrito em novembro de 2013. 

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